Conversei com os especialistas Erica Castelo e André Miceli para compreender melhor onde e como ele tem feito a diferença
Pesquisas apontam que empregos em arenas de trabalho com níveis mais altos de proximidade física tendem a sofrer uma maior transformação após a pandemia, desencadeando efeitos indiretos em outros setores.
Mais ainda: no processo de retomada pós-covid, as companhias devem se preparar para um mundo onde novas pandemias poderão acontecer.
Além disso, será necessário encarar uma realidade em que o coronavírus não desaparecerá totalmente, surgindo de tempos em tempos com novas variantes.
“Todo esse contexto traz a necessidade de um mundo mais ‘figital’, que concilia o melhor do mundo físico com o digital”, me diz Andre Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Negócios Digitais da FGV.
Pergunto sobre o queridinho do momento, o metaverso, terminologia utilizada para indicar um tipo de mundo virtual que busca replicar a realidade por meio de dispositivos digitai, como espaços coletivos virtuais compartilhados, constituídos por realidade virtual, realidade aumentada e Internet.
“O metaverso surge como uma alternativa de conexão, principalmente por habilitar que pessoas em diversas realidades colaborem e trabalhem em um mesmo ambiente. O home office ainda é para uma parcela pequena da força de trabalho e o espaço virtual aparece para unir profissionais nos escritórios e outros que estão trabalhando de suas casas.”
No mundo corporativo, o metaverso também é uma grande tendência para os próximos anos. “Agora o que temos é um período de testes, conceitos e diversos desafios para serem superados, como capacidade computacional, equipamentos, acessibilidade e diversas questões éticas que envolvem esse novo universo”, me afirma Miceli.
De forma geral, ainda vemos que os movimentos de transformação acabam sim com certas profissões, ao mesmo tempo em que criam oportunidades. Com o metaverso, entende o especialista, não será diferente: “Temos um grande desafio pela frente como os movimentos de reeskiling necessários e sobre a necessidade de mais profissionais de desenvolvimento. Nesse sentido, o metaverso pode ajudar no processo de formação e de requalificação da mão-de-obra, por conta de ambientes pensados para diversas realidades de usuário que tem diferentes maturidades tecnológicas”.
Transformação no RH
Eu também quis ouvir de Erica Castelo, headhunter com atuação global e CEO da The Soul Factor, como ela enxerga o metaverso inserido no futuro do trabalho.
“É algo muito novo e em desenvolvimento; apesar de parecer promissor, é cedo para entender os reais impactos. O que aumenta as chances de não ser apenas mais um modismo é o fato de que a pandemia já abriu espaço, mesmo que ‘a forceps’, para isso. Com a Covid acelerando a digitalização em larga escala nas empresas e lançando obrigatoriamente as pessoas ao mundo virtual, não dá para achar que o metaverso é pura ficção”, me justifica ela.
Na visão de Erica, o metaverso precisará avançar em termos de usabilidade, custo e leveza dos equipamentos, e acertar o mix entre realidade virtual e aumentada para trazer uma experiência enriquecedora e prazerosa, que evite a fadiga semelhante a que vemos nas videoconferências.
Esse aprimoramento, analisa, é o que poderá transformar a ferramenta em algo realmente útil, disruptivo, capaz de atrair os profissionais para dentro desse universo. Isso vai muito além de colocar óculos de VR para ir ao escritório.
Erica tem acompanhado simulações do que seriam exemplos de soluções transformadoras em segmentos como engenharia, medicina, marketing e tecnologia, interagindo com protótipos virtuais.
Em sua visão, o metaverso pode ajudar na integração geral de equipes remotas no universo corporativo, principalmente dessa nova geração que gosta de interatuar por meio da gamificação.
“Mas precisa ser usado da maneira correta, como ferramenta auxiliar no trabalho colaborativo, para evitar um burnout ainda maior nos colaboradores. Outro ponto interessante será que a evolução do metaverso vai acelerar ainda mais o trabalho remoto. Isso vai trazer ainda mais desafios aos trabalhadores, que deverão correr atrás de um perfil global, e para as empresas, que por um lado poderão contar com talentos no mundo todo, mas por outro, sofrerão as dores de um turnover mais alto por conta desse avanço de opções de trabalho”, me explana.
Novas profissões
A evolução do metaverso criará também possivelmente novas profissões, explica Erica: “Fazendo um paralelo aos hoje ‘influenciadores’ das mídias sociais, podemos imaginar que novos trabalhos aparecerão, ligados à construção e a apoio a esse novo mundo. O mercado precisará de gente para ajudar a construir esses espaços interativos, por meio das lojas virtuais, salas de aula ou qualquer outro espaço que precise de suporte em tempo real”.
Quanto ao recrutamento, a especialista se mostra cética, pelo menos enquanto essa tecnologia não evoluir para algo muito mais realista.
“Nas entrevistas usando a tecnologia como ela está hoje, as pessoas vão se esconder atrás dos avatares e o que os recrutadores procuram é o oposto. Precisamos saber quem é o humano além do profissional, captar seus gestos, seu olhar, entender se ela realmente é essa pessoa com perfil determinante para ocupar a vaga em questão. Tudo o que não devemos querer neste momento crucial da contratação, é entrevistar um personagem.”
Os equipamentos são caros e ainda estão em plena evolução, como qualquer nova tecnologia; pensar na grande massa de trabalhadores obtendo o equipamento para a realização das entrevistas é inviável nesse momento.
“Não vejo esse cenário se alterando num curto espaço de tempo. O metaverso precisa evoluir para se tornar uma ferramenta que potencializa o fator humano. Da maneira como está, é mais um candidato ao burnout tecnológico.”
André Miceli, da FGV, diz que, no geral, o metaverso se apresenta mais como solução do que como “vilão”. “O conceito fala sobre essa mescla, de expandir nossa realidade através do digital. Ambas irão coexistir e se complementar. Já vemos projetos na saúde, envolvendo cirurgias no metaverso, treinamentos e onboarding para diversos segmentos. O mundo dos jogos e entretenimento inicia a pavimentação do metaverso, em seguida a expansão para o trabalho e em seguida para novas formas de viver e se relacionar em realidades imersivas. Cada big tech deve lançar sua própria versão para o mundo corporativo e essa concorrência será vencida por quem oferece a melhor experiência.”
*Marc Tawil é empreendedor, estrategista de comunicação, escritor, educador e palestrante. Nº 1 LinkedIn Brasil Top Voices e LinkedIn Learning Instructor, é três vezes TEDxSpeaker e lança em 2022 pela editora HarperCollins Brasil o livro Seja Sua Própria Marca. Acesse os canais oficiais no Telegram e no YouTube.
FONTE: ÉPOCA NEGÓCIOS