Segundo conselho que regula a profissão, Kellen Queiroz não podia atuar como tal e, se o fizesse caracterizaria exercício ilegal. Duas pacientes relatam terem sido operadas por ela.
Kellen Cristina de Queiroz dos Santos, de 31 anos, apontada por duas pacientes como falsa médica no Hospital Santa Branca, em Duque de Caxias, não podia nem atuar como técnica de enfermagem, sua formação de origem.
A afirmação é do Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (Coren-RJ), que também regula a profissão de técnico, e que informa ainda que Kellen está com o registro vencido na instituição.
“Ela é formada na área, deu entrada no registro provisória em 2009, que é válido por um ano, mas não fez a inscrição definitiva. A mesma está vencida desde então, o que caracteriza exercício ilegal da profissão. Não é considerada profissional de enfermagem, por não ter Coren”, detalhou a instituição por nota ao g1.

O nome de Kellen Queiroz veio à tona com a prisão do médico Bolívar Guerrero Silva, acusado de manter uma paciente em cárcere privado. No dia da prisão, ela foi encontrada com Bolívar no centro cirúrgico da clínica, mas, em depoimento em sede policial, negou ser médica, disse que era técnica de enfermagem, mas que não trabalhava como tal no Santa Branca, e que estava no centro cirúrgico apenas para dar algum suporte caso Bolívar precisasse – mas não especificou que tipo de suporte seria esse.

Pacientes denunciam
Mas de acordo com as denúncias de duas pacientes, Kellen agia, sim, como médica, vendia cirurgias plásticas e cobrava a mais para estar nos procedimentos, oferecendo suporte maior para as pacientes.
Com uma delas, Fernanda Almeida, de 24 anos, indicou pomada, ofereceu atestado e pediu para que a mesma fosse até um consultório para uma revisão de cirurgia, como mostram os prints de conversas entre as duas e que constam ainda em um processo movido contra a técnica e o médico Bolívar Guerrero na 7ª Câmara Cível de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
“Todo mundo a tratava como médica na Santa Branca, ela só vivia em consultório e se apresentava assim nas redes sociais também. Vivia postando foto em consultório e no centro cirúrgico”, diz Fernanda com imagens que também integram o seu processo.
Já com Daiana Cavalcanti, de 35 anos – a paciente que acusa o Santa Branca e Bolívar Guerrero de cárcere privado -, informou à paciente que participou de sua cirurgia para a colocação de silicone, que a mesma foi difícil por causa do tamanho da mama da paciente, e “prescreveu” uma caminhada até uma churrascaria nos arredores da clínica para Daiana “reagir”.
“Ela falou que foi ela que fez. Quando eu entrei (no centro cirúrgico), eu estava esperando por ela e o Bolívar. Depois, apaguei e, quando abri o olho, ela falou que foi ela que me operou, que meu peito foi até difícil para levantar porque a mama era muito grande, mas ela disse que foi ela que fez. Não vi porque estava apagada, mas ela falou que foi ela”, disse Daiana.

Segundo prints de suas redes sociais, Kellen também se apresentava como médica em suas redes sociais e postava no que parecia ser operando em um centro cirúrgico, e elogiando a parceria com Bolívar: “Sempre um prazer operar ao seu lado.

Polícia investiga
O g1 entrou em contato com a delegada Fernanda Fernandes, da Deam de Caxias, que está cuidando do caso da Santa Branca, para saber se ela investiga Kellen e se tem ciência de que ela operava.
“Estamos na fase de apuração do inquérito policial. Tudo está muito recente, mas estamos analisando todos os depoimentos, todas as evidências e, se constatados outros crimes, vamos investigar e indiciar”, disse a delegada.
A pena para quem exerce a profissão de médico ilegalmente varia de seis meses a dois anos de prisão. Se o crime é praticado com o fim de lucro, aplica-se também multa.


Fonte: G1